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Posts Tagged ‘Viver na Alemanha’

::Trabalhar ou não trabalhar na Alemanha – eis a questão::

24/02/2017

Um texto escrito para brasileiras na Alemanha

Saiu um estudo recente da OECD mostrando que a Alemanha é um dos países onde as mulheres mais trabalham em período parcial. Na Alemanha, 70% das mulheres trabalham, e dentre elas, 30% em período integral e 40% em período parcial. Uma taxa de trabalho em regime parcial maior do que na Alemanha (dentre os países que fazem parte da OECD) só pode ser encontrada na Holanda e na Áustria. A bem da verdade, em alguns países como nos EUA ou na Suíça esta opção de trabalho parcial, além de muitas outras que facilitam a reinserção da mulher no mercado de trabalho, praticamente não existem, e muitas mulheres acabam parando de trabalhar por não terem condições de encontrar uma maneira de se reequilibrarem na corda bamba da vida como mães e profissionais.

Com relação à possibilidade de trabalho parcial na Alemanha, há muitas observações, a seguir:

– Esse é um direito garantido por lei na Alemanha para empresas acima de 15 empregados (Teilzeitgesetz). Uma mãe (ou pai) que requer, depois do Elternzeit (licença de 1-3 anos que se pode tirar para cuidar do filho), um regime de trabalho parcial, só pode ter seu pedido negado pela empresa por motivo de força maior;

– O mercado de trabalho alemão é realmente muito flexível e existem empregos de todos os tipos e constelações imagináveis, de poucas horas, algumas horas em alguns dias da semana ou no final de semana, com período limitado de duração, etc. – cada um monta seu esquema da maneira que lhe apetece;

– Observe-se que trabalhos em regime parcial são muito concorridos! Há muitas mães, muitas delas altamente qualificadas, buscando o mesmo tipo de trabalho: de preferência 4 horas por dia, durante o período da manhã;

– Como é de se esperar, o salário oferecido para trabalhos em regime de tempo parcial não é significativo e muitas vezes até menor (em termos de salário pago por hora) do que o salário pago para pessoas trabalhando em tempo integral. Portanto, caso apresente sua proposta de redução de carga horária, observe a regra de três!

– A consequência lógica, no caso de um salário baixo, é que as contribuições para a aposentadoria também serão baixas, e aí moram perigos bastante grandes! Há casos de separação onde a mulher fica desamparada no presente e a aposentadoria mais tarde terá um valor reduzido, muitas vezes não sendo suficiente para (sobre)viver. Acompanhei também o caso de uma senhora que sempre trabalhou em período parcial, seu marido faleceu aos 60 anos e ela se viu de um dia para o outro com uma renda bastante reduzida, pois como viúva tinha direito a parte da aposentadoria do marido, que ainda não tinha completado os anos necessários para uma aposentadoria normal, e o que ela recebia como salário em tempo parcial ainda era tomado em consideração para o cálculo de sua aposentadoria como viúva!

– Por último, acrescentaria a lógica de que um trabalho em período parcial ajuda a driblar o dia-a-dia, mas pode impedir o crescimento profissional, pois tarefas mais complexas geralmente exigem mais dedicação do funcionário. E sem o desenvolvimento profissional, o salário tende a ser o mesmo por muitos e muitos anos, com pouquíssima probabilidade de aumento de remuneração.

Mesmo tendo consciência de todos esses pontos, eu trabalhei durante os primeiros anos de vida do meu segundo filho no regime de 80% (de segunda a sexta, de 8 da manhã às 2h da tarde). Considero que foi um período muito bom, que me permitiu acompanhar meu filho de perto, me deu tempo para observar e realmente aprender a acompanhar as mudanças da natureza e me fez aprender a respeitar todas as mães: as que ficam em casa por opção, as que vão trabalhar em tempo parcial e as que, como eu, voltam a trabalhar em período integral.

As dificuldades encontradas por uma mãe que quer voltar ao trabalho, ainda mais em um país estrangeiro, são enormes. O idioma, a cultura, o sentimento de culpa, as dúvidas… A lista seria interminável. Eu diria que há vários pontos que contribuem para a decisão de voltar ao trabalho, mesmo tendo filhos pequenos:

– Você não perderá o contato com seus colegas e se manterá em dia com relação à tecnologia e aos sistemas empregados na empresa;

– Se manterá atualizada na sua área;

– Não terá que explicar um buraco no seu currículo mais tarde;

– Continuará contribuindo para sua aposentadoria;

– Terá chances contínuas de aumentos salariais;

– Manterá (nem que seja em parte) sua independência financeira;

– Encontrará, mesmo que depois de muita procura, paciência e grande antecedência de planejamento, uma rede para dar suporte ao dia-a-dia e aos períodos de emergência, formada por jardim de infância, creche, KiTa, Tagesbetreuung (cuidado diário depois do final das aulas com acompanhamento escolar e almoço), escola, professores, Tagesmütter (mães que se dispõem a cuidar de outros filhos, se formam e se organizam em associações), ajuda governamental nas férias escolares, parentes, amigos, etc. Já dizia um ditado africano que para se cuidar de um filho, precisa-se de um povoado inteiro! E mesmo o governo alemão dá bastante suporte através de programas como o Elterngeld, 10 dias de licença por ano no caso de filhos doentes (comprovadas pelo médico), previstos por lei tanto para mães quanto para pais, além de vários outros programas e leis.

Assim que tiver tomado a decisão do que é melhor para a sua vida, junto do seu parceiro, e de como irá organizar seu dia a dia, como e quando irá trabalhar, terá por certo que ter respostas afiadas e treinadas para todo tipo de pessoa que quiser se intrometer em sua vida e lhe ensinar o jeito «certo» de viver. Quando eu trabalhava em tempo parcial, vivia recebendo comentários de funcionários que queriam também sair mais cedo do trabalho, e me diziam que eu tinha uma «vida boa». Até que eu disse que todo funcionário tinha o direito de solicitar um trabalho em meio período, mas tinha também que aceitar metade do salário. Pronto, os comentários chatos se foram!… E quando trabalhava em tempo integral e meus filhos ainda eram pequenos, recebia comentários do tipo «coitada de você, que tem que trabalhar!» e minha invariável resposta era «coitada por que, se eu trabalho porque gosto?» Terá que organizar seu dia a dia para dias normais e alguns tantos anormais, tais como doenças, imprevistos, etc. Alguns dias não vão dar certo e seus planos vão ir por água abaixo, portanto será necessário aceitar que não há planos sem falha e não há perfeito sem defeito. Terá que relativizar seu sentimento de culpa, crescer na adversidade e descobrirá que todo ser humano tem suas dúvidas, mesmo as mães que ficam em casa, não só as que deixam seus filhos na escola todo dia para ir trabalhar. Terá que se organizar para garantir a comunicação dentro de casa, os momentos qualitativos (e não quantitativos) com seus filhos e a divisão de tarefas com seu parceiro. Não será uma questão dele lhe «ajudar» em casa, pois divide o mesmo chão com você, assim como seus filhos. Juntos, em casa, serão um time cooperativo onde todo mundo tem que ajudar.

Eu tenho plena consciência de que escolhi um caminho árduo, mas que vejo ser recompensado pela independência dos meus filhos e pelo meu desenvolvimento profissional. Tenho plena consciência também de que vários caminhos levam a Roma e não há um jeito único e certo de viver e de educar filhos. Respeito todas as opções, ao mesmo tempo que dou grande força para as mulheres que querem crescer profissionalmente e conquistar seu lugar ao sol como mães e profissionais, pois tempo trabalhado significa maior independência financeira hoje e sempre, além de garantia de aposentadoria mais tarde.

Fonte: Artigo do jornal Die Zeit sobre o estudo da OECD datado de 20/02/17, primeiramente lido e discutido no grupo Mães Brasileiras na Alemanha do Facebook.

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::Desabafo::

04/11/2008

Tem uma coisa aqui na Alemanha que me incomoda demais: a democracia! Ah, vocês vão achar que sou terrorista? Nada disso! Mas esta mania de discutir as coisas até não poder mais, criticar demais decisões tomadas e sempre ser “do contra” (como na figura ao lado: “dagegen!”) não me agrada nem um pouco. A tendência é retardar medidas necessárias, achar que se está andando para frente correndo sempre atrás do próprio rabo, se perder no meio de tantos “poréns”, “mas”, “e por que não”…. Aber, aber, aber (mas, mas, mas…) A única vantagem é que quando uma decisão é tomada “em conjunto”, “depois disso” ninguém discute nada mais. Isso é altamente visível no ambiente de trabalho. Ah, ok, na política também. Ok, em todos os lugares onde pessoas se encontram para tomar decisões (vide as reuniões de pais no ginásio da Taísa que quase me custam a saúde!). Desabafei. Pronto!

::Dica de leitura::

19/10/2008

Recomendo – e muito – o livro de Adriana Nunes intitulado “Nur die Edelsteine kommen aus Brasilien – Brasilianer in Deutschland” (Só as pedras preciosas vêm do Brasil – Brasileiros na Alemanha). A autora reuniu nele 31 histórias de brasileiros (jogador de futebol, política, perseguido político, prostituta, homem de negócios, bailarina, etc.) que, apesar das diferentes origens, vieram para cá em busca do mesmo objetivo: o de poder viver uma vida com mais qualidade, temperada com muita flexibilidade, persistência e criatividade, características tão peculiares nossas. Aprendi muito com este livro, que é cheio de passagens engraçadas, inusitadas, alegres e tristes, como a vida. Parece que o livro foi lançado só em alemão pela editora EOS. Leia aqui uma entrevista em português com a autora Adriana Nunes.

::Nacionalidade alemã agora só com teste de conhecimentos gerais sobre a Alemanha::

04/10/2008

A novidade, além dos procedimentos descritos aqui, é que desde 01.09.2008 é necessário fazer um teste de conhecimentos gerais sobre a Alemanha para obter a cidadania, que se resume a responder perguntas gerais sobre diversos tópicos relacionados ao país: história, política, costumes, leis, etc. Este teste é baseado no curso oferecido pela VHS (Volkshochschule), que prepara as pessoas aqui na Alemanha interessadas em obter o passaporte alemão. São mais de 300 perguntas divididas em grupos, de acordo com o estado alemão no qual a cidadania for requerida. Destes são retiradas 33 perguntas de múltipla escolha com 4 possíveis respostas. Quem acertar pelo menos 17 das 33 perguntas passa no teste. Mais informações aqui.

::Movimento Blog Voluntário::

26/04/2008

Movimento Blog VoluntárioMuita gente diz pra mim que não tem blog porque não sabe escrever, não saberia sobre o que falar, não tem nada para dividir. A coisa fica parecendo mais complicada do que é. Na realidade blogar é simplesmente dividir com outros aquilo que você gosta e, com isso, ter a oportunidade de manter ou fazer amigos.

A tendência de todos nós, seres humanos, é nos concentrar naquilo que nos divide e nas nossas diferenças. Mas se pensarmos que geneticamente falando só 0,01% é diferente no ser humano, entendemos rapidamente que há muito mais razões para nos unirmos do que para nos criticarmos e separarmos.

Juntando a este argumento, não poderia deixar de lado uma razão fantástica para blogar: se tornar “jornalista”, divulgar suas idéias, opiniões, e tudo isso sem fronteiras, pois a sua janela é o mundo! E o que facilmente acontece no dia-a-dia, a divisão de gerações, também não existe necessáriamente no mundo dos blogs. Cada blog é uma voz, e cada voz pode passar suas idéias e sua visão de mundo para frente. Participe você também! Aqui no WordPress, por exemplo, é realmente super simples começar seu blog gratuitamente: é só cadastrar-se, escolher seu modelo de blog e começar a postar. Entre você também nesta onda, você só tem a ganhar!

Curiosidade: há pessoas de todas as idades blogando. A blogueira mais velha do mundo, com 107 anos, é está aqui.

P.S.-Participei durante vários anos como colunista do Viver na Alemanha, uma página criada para brasileiros que já estão aqui , querem vir ou se informar sobre a Alemanha. Estou, aos poucos, copiando meus textos de lá pra cá. Todos eles falam sobre minha experiência de vida ou sobre temas da atualidade da Alemanha. Para vê-los, clique na categoria (na coluna da direita) Viver na Alemanha. Comentários são sempre bem-vindos!


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