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Posts Tagged ‘filhos’

::Trabalhar ou não trabalhar na Alemanha – eis a questão::

24/02/2017

Um texto escrito para brasileiras na Alemanha

Saiu um estudo recente da OECD mostrando que a Alemanha é um dos países onde as mulheres mais trabalham em período parcial. Na Alemanha, 70% das mulheres trabalham, e dentre elas, 30% em período integral e 40% em período parcial. Uma taxa de trabalho em regime parcial maior do que na Alemanha (dentre os países que fazem parte da OECD) só pode ser encontrada na Holanda e na Áustria. A bem da verdade, em alguns países como nos EUA ou na Suíça esta opção de trabalho parcial, além de muitas outras que facilitam a reinserção da mulher no mercado de trabalho, praticamente não existem, e muitas mulheres acabam parando de trabalhar por não terem condições de encontrar uma maneira de se reequilibrarem na corda bamba da vida como mães e profissionais.

Com relação à possibilidade de trabalho parcial na Alemanha, há muitas observações, a seguir:

– Esse é um direito garantido por lei na Alemanha para empresas acima de 15 empregados (Teilzeitgesetz). Uma mãe (ou pai) que requer, depois do Elternzeit (licença de 1-3 anos que se pode tirar para cuidar do filho), um regime de trabalho parcial, só pode ter seu pedido negado pela empresa por motivo de força maior;

– O mercado de trabalho alemão é realmente muito flexível e existem empregos de todos os tipos e constelações imagináveis, de poucas horas, algumas horas em alguns dias da semana ou no final de semana, com período limitado de duração, etc. – cada um monta seu esquema da maneira que lhe apetece;

– Observe-se que trabalhos em regime parcial são muito concorridos! Há muitas mães, muitas delas altamente qualificadas, buscando o mesmo tipo de trabalho: de preferência 4 horas por dia, durante o período da manhã;

– Como é de se esperar, o salário oferecido para trabalhos em regime de tempo parcial não é significativo e muitas vezes até menor (em termos de salário pago por hora) do que o salário pago para pessoas trabalhando em tempo integral. Portanto, caso apresente sua proposta de redução de carga horária, observe a regra de três!

– A consequência lógica, no caso de um salário baixo, é que as contribuições para a aposentadoria também serão baixas, e aí moram perigos bastante grandes! Há casos de separação onde a mulher fica desamparada no presente e a aposentadoria mais tarde terá um valor reduzido, muitas vezes não sendo suficiente para (sobre)viver. Acompanhei também o caso de uma senhora que sempre trabalhou em período parcial, seu marido faleceu aos 60 anos e ela se viu de um dia para o outro com uma renda bastante reduzida, pois como viúva tinha direito a parte da aposentadoria do marido, que ainda não tinha completado os anos necessários para uma aposentadoria normal, e o que ela recebia como salário em tempo parcial ainda era tomado em consideração para o cálculo de sua aposentadoria como viúva!

– Por último, acrescentaria a lógica de que um trabalho em período parcial ajuda a driblar o dia-a-dia, mas pode impedir o crescimento profissional, pois tarefas mais complexas geralmente exigem mais dedicação do funcionário. E sem o desenvolvimento profissional, o salário tende a ser o mesmo por muitos e muitos anos, com pouquíssima probabilidade de aumento de remuneração.

Mesmo tendo consciência de todos esses pontos, eu trabalhei durante os primeiros anos de vida do meu segundo filho no regime de 80% (de segunda a sexta, de 8 da manhã às 2h da tarde). Considero que foi um período muito bom, que me permitiu acompanhar meu filho de perto, me deu tempo para observar e realmente aprender a acompanhar as mudanças da natureza e me fez aprender a respeitar todas as mães: as que ficam em casa por opção, as que vão trabalhar em tempo parcial e as que, como eu, voltam a trabalhar em período integral.

As dificuldades encontradas por uma mãe que quer voltar ao trabalho, ainda mais em um país estrangeiro, são enormes. O idioma, a cultura, o sentimento de culpa, as dúvidas… A lista seria interminável. Eu diria que há vários pontos que contribuem para a decisão de voltar ao trabalho, mesmo tendo filhos pequenos:

– Você não perderá o contato com seus colegas e se manterá em dia com relação à tecnologia e aos sistemas empregados na empresa;

– Se manterá atualizada na sua área;

– Não terá que explicar um buraco no seu currículo mais tarde;

– Continuará contribuindo para sua aposentadoria;

– Terá chances contínuas de aumentos salariais;

– Manterá (nem que seja em parte) sua independência financeira;

– Encontrará, mesmo que depois de muita procura, paciência e grande antecedência de planejamento, uma rede para dar suporte ao dia-a-dia e aos períodos de emergência, formada por jardim de infância, creche, KiTa, Tagesbetreuung (cuidado diário depois do final das aulas com acompanhamento escolar e almoço), escola, professores, Tagesmütter (mães que se dispõem a cuidar de outros filhos, se formam e se organizam em associações), ajuda governamental nas férias escolares, parentes, amigos, etc. Já dizia um ditado africano que para se cuidar de um filho, precisa-se de um povoado inteiro! E mesmo o governo alemão dá bastante suporte através de programas como o Elterngeld, 10 dias de licença por ano no caso de filhos doentes (comprovadas pelo médico), previstos por lei tanto para mães quanto para pais, além de vários outros programas e leis.

Assim que tiver tomado a decisão do que é melhor para a sua vida, junto do seu parceiro, e de como irá organizar seu dia a dia, como e quando irá trabalhar, terá por certo que ter respostas afiadas e treinadas para todo tipo de pessoa que quiser se intrometer em sua vida e lhe ensinar o jeito «certo» de viver. Quando eu trabalhava em tempo parcial, vivia recebendo comentários de funcionários que queriam também sair mais cedo do trabalho, e me diziam que eu tinha uma «vida boa». Até que eu disse que todo funcionário tinha o direito de solicitar um trabalho em meio período, mas tinha também que aceitar metade do salário. Pronto, os comentários chatos se foram!… E quando trabalhava em tempo integral e meus filhos ainda eram pequenos, recebia comentários do tipo «coitada de você, que tem que trabalhar!» e minha invariável resposta era «coitada por que, se eu trabalho porque gosto?» Terá que organizar seu dia a dia para dias normais e alguns tantos anormais, tais como doenças, imprevistos, etc. Alguns dias não vão dar certo e seus planos vão ir por água abaixo, portanto será necessário aceitar que não há planos sem falha e não há perfeito sem defeito. Terá que relativizar seu sentimento de culpa, crescer na adversidade e descobrirá que todo ser humano tem suas dúvidas, mesmo as mães que ficam em casa, não só as que deixam seus filhos na escola todo dia para ir trabalhar. Terá que se organizar para garantir a comunicação dentro de casa, os momentos qualitativos (e não quantitativos) com seus filhos e a divisão de tarefas com seu parceiro. Não será uma questão dele lhe «ajudar» em casa, pois divide o mesmo chão com você, assim como seus filhos. Juntos, em casa, serão um time cooperativo onde todo mundo tem que ajudar.

Eu tenho plena consciência de que escolhi um caminho árduo, mas que vejo ser recompensado pela independência dos meus filhos e pelo meu desenvolvimento profissional. Tenho plena consciência também de que vários caminhos levam a Roma e não há um jeito único e certo de viver e de educar filhos. Respeito todas as opções, ao mesmo tempo que dou grande força para as mulheres que querem crescer profissionalmente e conquistar seu lugar ao sol como mães e profissionais, pois tempo trabalhado significa maior independência financeira hoje e sempre, além de garantia de aposentadoria mais tarde.

Fonte: Artigo do jornal Die Zeit sobre o estudo da OECD datado de 20/02/17, primeiramente lido e discutido no grupo Mães Brasileiras na Alemanha do Facebook.

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::Asas aos filhos::

02/05/2015

Asas aos filhos

Para que eles desbravejem mundos

°°°

Asas aos filhos

Para que eles emitam sons,

Ideias que seriam as suas,

Expandam seus horizontes,

Ampliem sua percepção sobre a vida

°°°

Dar asas é um processo de desligamento

Doce e amargo ao mesmo tempo

°°°

Ao mesmo tempo que dou asas,

Queria estar voando com você

Mas sigo em todo canto

Por onde passa

A cada batida do seu coração

°°°

Boa viagem, minha filhota!

Que Deus a acompanhe!

::Aprendo::

08/04/2014

Olhando coisas antigas que eu mesma escrevi, mais exatamente em 19/02/08, achei o seguinte:

Aprendo muito com meus meus filhos. Com a minha filha aprendo a ser mais tolerante e mais organizada. Com meu filho aprendo a ter mais paciência pra esperar pela hora certa de cada coisa. A maternidade na realidade é uma via de mão dupla.

::12 coisas que aprendi sendo mãe fora do Brasil::

06/04/2014

Acabo de achar a dica deste texto do blog “Tudo sobre minha mãe” no mural do Facebook da minha amiga Chris.

O texto é de autoria de Camila Furtado, uma mãe brasileira que também mora aqui na Alemanha. Li, gostei e compartilho com vocês. A frase da qual mais gostei foi a seguinte: “É necessário fazer muito ajuste mental para rodar a maternidade em um software gringo.” Isso é pura verdade. A Camila, como eu, vamos constatando isso cada vez mais, enquanto nossos filhos vão crescendo em território estrangeiro. Eu que o diga com filha adolescente! 😉

::Série de vídeos sobre a geração de 30 anos na Alemanha::

15/01/2011

Achei também na página da “Der Spiegel” uma série de vídeos que mostra vários alemães na faixa de 30 anos e mostra como eles são, o que pensam, o que os diferencia da vida dos pais, quais são seus medos com relação ao futuro.

Dentre os entrevistados, as mulheres entrevistadas sao bastante diversificadas e dão uma boa orientação quanto a como vive uma mulher jovem na Alemanha atual. Em geral, hoje em dia, elas querem ter sucesso na profissão e construir uma família, mas sentem-se divididas entre tantas responsabilidades, muitas vezes conflitantes. Os filhos acabam chegando bem mais tarde, muito depois dos 30, principalmente porque elas querem alcançar muito antes de se tornarem mães e porque nem toda cidade tem um apoio bom para as famílias, por exemplo com creches e escolas de período integral.

Os jovens vivem bem mais livres, sao mais abertos, aceitam melhor as mudanças e sabem que a vida nao será como a dos pais, que aprenderam uma profissão e ficaram nela, muitas vezes até na mesma empresa, até a aposentadoria. A vida globalizada de hoje exige muita capacidade de adaptação, flexibilidade para acompanhar as mudanças rasantes, nao só tecnológicas, e uma abertura para o futuro, que muitas vezes não vai ser tal como planejado.

::Choque no Facebook::

14/12/2010

O Facebook, FB para os íntimos, virou artigo de primeira necessidade pra muitos, pra uns mais, pra outros menos. Os jovens aqui da região onde moro estão todos por lá, e passam horas visitando os perfis dos amigos, recebendo e enviando mensagens, papeando no “chat”, etc. O número de amigos é imenso (200-300 pessoas no mínimo). As fotos, fantásticas. O conhecimento das ferramentas do programa: avançado. Eu, da minha parte, visito o FB com relativa frequência: trata-se de uma visitinha rápida quando eu passo pelas novidades no meu perfil, faço um comentário aqui, outro ali e de lá vou pro perfil da loja do Matthias, o “XGames Radolfzell“, pra divulgar alguma promoção e estar, junto com ele, em contato com os clientes.

Ontem, lá pela 1h da madrugada (eu sei, eu deveria aprender a ir mais cedo pra cama, mas não sou de ir dormir cedo!), resolvi dar uma passadinha rápida no FB pra me atualizar das novidades antes de desligar o meu computador e ir pra cama. E eis que arregalo os olhos perante uma notícia inesperada, que comuniquei imediatamente pro Matthias. O anúncio estava em palavras claras e simples no meu perfil: “Taísa Santos está se relacionando com xx Dörfer”! Quer dizer então que minha filha tem um namorado e não me contou! O 1° namorado! Mil e um pensamentos circulavam na minha cabeça como um turbilhão… Ah ha, então esta é a modernidade, onde os pais são informados pelo FB sobre o namoro dos filhos! Não hesitei: procurei o perfil do tal menino, dei uma olhada em algumas fotos e constatei quem ele era, que o namorico tinha começado supostamente ontem mesmo, etc… Pensei num outro carinha da sala dela, muito simpático, e senti por não ser ele o “escolhido”. Minha reação? Mandei pra ele um convite pra ele ser meu amigo, sem maiores comentários!

Há alguns meses atrás o FB tinha me mandado uma mensagem afirmando que achava que eu conhecia meu irmão, vê se pode, e perguntou se eu queria ser amiga dele! Pois então, isso já tinha sido demais, imaginem agora a novidade do momento! Como já era tarde da noite quando fiz a descoberta, não tive como conversar com a Taísa ontem à noite mesmo. De manhã o tempo é curtíssimo, mas pensei que poderíamos conversar no carro, quando a levaria para a escola. Quando a acordei de manhã, ela me disse que iria pro colégio junto de uma amiga, e por isso ela não iria pegar carona comigo, podendo dormir mais um pouco. Dado que ela é praticamente incomunicável quando acorda, a conversa ficou mesmo pra noite.

Durante o dia os pensamentos neste sentido foram tomados por vários probleminhas pra resolver no trabalho, tendo sido interrompidos pela hora do almoço, quando me encontrei com o Matthias, meu marido. Eu e ele fizemos vários comentários de como a vida está ficando doida, meu Deus, imaginem uma máquina me avisando que nossa filha tem namorado! No domingo mesmo eu estava comentando com uma amiga que achava que ela estava prestes a arrumar o 1° namorado, mas não imaginava que iria ser “tão de repente” assim. Meu marido chegou até a brincar, dizendo que a partir de agora ela precisa de cinto de castidade e vai ficar 3 anos presa em casa. Tudo na brincadeira, claro, mas a novidade do dia tinha mesmo nos deixado meio “fora do ar”. Acho que nos sentíamos naquela hora como todo pai se sente quando fica sabendo do 1° namoro do filho: meio perdidos, um tanto quanto “velhos”, um misto de um pouco de alegria e um pouco de receio no ar.

Depois do trabalho, fui levar o Daniel pra cortar cabelo e ele ficou aliás super gatinho de cabelo curto e de óculos! 🙂 Chegando em casa, tinha um senhor medindo o consumo da nossa calefação: nada de conversa. Como ela não tocava no assunto e eu também não, e já que o Matthias estava prestes a chegar em casa, resolvi esperar por ele pra podermos conversar com ela na presença de nós dois em casa. Dito e feito e conforme o planejado, o Matthias foi logo ao ponto ao entrar dentro de casa:
– Boa noite, senhora… – e se virando pra mim – Como era mesmo o nome dele?
– Dörfer! – respondi.
Ele, imediatamente:
– Boa noite, senhora Dörfer!

Ela riu com um sorriso meio amarelado no caminho pro quarto dela. Não disse nada. Ao voltar, explicou que era uma brincadeira dos dois, e que eles tinham feito isso só pra espantar umas 3 meninas que estavam atrás do dito cujo e pra que elas o deixassem em paz. Pode uma coisa dessas? Bom, ufa, o namoro só existe então no mundo virtual! Ficou pra próxima, pausa, tudo voltou ao normal. Deus meu, estou envelhecendo. Minha filha está se transfomando em mulher e saindo de vez debaixo das minhas asas. Ela não estava me escondendo nada, mesmo porque não tinha razão para tanto, pois somos amigas. Nada mais do que um dia normal como outro qualquer. A novidade era só uma brincadeira.

Pra compensar o choque de ontem, acabo de entrar no FB e achar esta figurinha aqui:

Obrigada, Ceci! O que seria da Mineirinha sem você? Nada como um dia depois do outro!!!

P.S.-Update, 15.12.10: Hoje a Taísa contou que o suposto namorico já foi apagado do mundo virtual sem deixar vestígios. Rapida ela, heim?

::Tô exausta::

04/10/2009

Passamos o final de semana todinho fazendo reforma em casa. Agora o Daniel tem um quarto só pra ele, grande o suficiente para ele brincar com todos os seus carrinhos, trenzinhos e acessórios. Como ele não é bobo e não nasceu ontem, e percebeu que estamos com o comprador aberto pro lado dele nos últimos dias, ele já pediu (e já ganhou) um tapete com ruas, que parece uma mini-cidade, pra ele poder brincar com seus carrinhos nele, e também quer ter uma cozinha pra colocar debaixo da nova cama, que vai ser alta com espaço embaixo pra ele brincar. Ele disse que debaixo da cama ele tem uma casa e lá quer ter uma cozinha. Vou dar uma olhada no ebay pra ver se acho algo baratinho pra ele de segunda mão. Eu tenho que incentivar esse interesse grátis dele por cozinhar! Está puxando o pai, que bom!

Mas há uma diferença enorme entre fazer reforma no Brasil e aqui na Alemanha. Aqui fazemos a reforma mesmo, no Brasil mandamos fazer. Depois de termos feito a encomenda dos móveis, compramos todo o material para pintar e assentar o chão do quarto, além das máquinas necessárias. Depois tiramos tudo de dentro do quarto e colocamos a mão na massa. Pintar foi rapidinho, o que demorou mais foi retirar toda a roupa pra fora de um armário de 3m de largura, arrancar o carpete antigo e assentar o novo chão. Apesar dos móveis ainda não terem chegado, o Daniel já quis dormir no seu novo quarto, mesmo que fosse só em cima de um colchão. Demorou, deu (está dando!) o maior trabalho, estou exausta, mas super satisfeita com os resultados! O que não fazemos por nossos filhos, não é mesmo?

::Tatá & Dani::

12/10/2008

A Taísa estava passando a semana inteira aqui, excursionando com a sala dela. Que vida boa de estudante aqui na Alemanha, né? Quando ela chegou em casa me contando do valor da excursão (chamada em alemão de Landschulheim) e depois contando que precisaria de uma calculadora de quase 100 euros (que minha irmã acabou trazendo dos EUA, economizando um pouquinho), eu quase caí pra trás e perguntei se ela teria mais alguma notícia ruim ($$$), porque se tivesse eu iria me sentar antes dela continuar…

Enquanto isso, o Daniel está delirando com o trenzinho novo da Lego que o papai comprou pra ele (depois que o Dani mostrou o catálogo e disse “compra isso e isso pra mim!”, pode?!?), e hoje de manhã toda a família estava montando trilhas e brincando junto com ele. Vida de criança é bom demais, né? Ele está com 3 anos, passou um tempão sem se desenvolver na fala e quando eu estava ficando um pouco preocupada, ele deslanchou e agora está falando bem mais!

Semana passada recebi um pacotinho de presente da minha família, cheio de presentes pra mim e pra todo mundo aqui de casa. Ganhei o livro autografado da mamãe e da minha tia, uma blusinha crochetada da mamãe, CDs (do Pedro Morais!) e muitas outras coisinhas. Estava ouvindo um dos CDs novos com músicas da Rita Lee, quando a Taísa comentou:

Engraçado, em português até quando cantam coisas negativas, parece que a vida está ótima, porque o idioma é muito leve. Enquanto que a música da Pink (So what?) trata do mesmo tema dessa música e nela dá pra ver que ela está com raiva mesmo!

Isso é verdade mesmo!

::Pais e filhos::

21/04/2008

Seguindo o caso da menina Isabella no Brasil, me vieram à mente vários pensamentos: este caso é muito semelhante ao da Maddie, menina inglesa morta numa praia de Portugal (onde os pais podem ser os culpados); que todo pai tem sentimento de proteção mas ao mesmo tempo passa por momentos de raiva e de perda de controle com relação ao seu filho (vejam bem, não estou desculpando nada, só comentando, como nesta análise da psicanalista Castello Branco: “É normal ter o impulso de matar por raiva. Não fazemos isso por uma simples razão: a conseqüência é maior do que podemos suportar. É o peso da culpa, o medo de pagar pelo crime”); que chama a atenção como a população brasileira vem acompanhando o caso (“Eu entendo que, quando acontece uma situação dessas, as pessoas projetam todo o mal que elas não podem ver nelas mesmas naqueles dois. Historicamente, sempre foi assim. Quando as prostitutas eram apedrejadas, quando os assassinos eram castigados em praça pública, o ritual coletivo servia como expiação do que havia de mal em cada indivíduo”, palavras do psiquiatra Victor Palomo); que independente de quem quer que seja que cometeu o crime, que esta(s) pessoa(s) realmente é (são) capaz(es) de uma atitude altamente fria e calculista supostamente sem sentimento de culpa; que quem comete um crime destes já está condenado ao inferno, pois Deus vê tudo; e por último, pensando no meu caso pessoal, uma loucura dessas poderia ter acontecido com minha filha!

Talvez algumas pessoas pensem que casos loucos como este de agressão e morte a crianças só aconteçam em determinados níveis sociais ou mais em um país, menos em outros. Mas eu, que sigo tanto a imprensa brasileira quanto a alemã, posso dizer que há pessoas de todos os tipos, muito boas e muito más, espalhadas por todos os cantos deste mundo. Quantas vezes já noticiaram aqui terem encontrado corpos de bebês em freezers da casa de “mães” que ficaram grávidas várias vezes, tiveram vários filhos, mas nunca conseguiram assumir a maternidade?

Há poucas semanas atrás noticiaram aqui na Alemanha o caso de uma família separada, onde a mãe queria conseguir através de decisão judicial que o pai não só pagasse pensão para o filho, mas também que fosse exigido dele que visite e dê atenção ao filho. A decisão da Justiça foi muito sábia, na minha opinião, pois não se pode exigir isso de um “pai”, mesmo porque amor não pode ser imposto, ele tem que vir de dentro. A Justiça alegou que uma atitude dessas iria contra os interesses da criança. Concordo plenamente.

Li um artigo muito bom hoje sobre o assunto no jornal “Die Zeit” (O Tempo), datado de 03.04.08. Vamos ver se vou conseguir fazer um resumo dele. O título é o seguinte:

“Rabenväter – Wieso kann man Männer nicht zwingen, sich um ihre Kinder zu kümmern. Antes de começar com a tradução, queria comentar que acho interessante que a língua alemã tenha um substantivo próprio para pais (ou mães) que não cuidam bem de seus filhos: Rabenvater para o mau pai, e Rabenmutter para uma má mãe. Rabe significa corvo em alemão.

Maus pais – porque não se pode exigir deles que cuidem de seus filhos

A Justiça perde para a tristeza dos dias atuais. Neste caso não há parágrafo que ajude, pois o mundo já está mesmo caindo aos pedaços. Como no caso em que o Tribunal de Justiça Federal acaba de tomar uma decisão. As partes: uma mãe de Brandenburg, que entregou seu filho para um orfanato, pois ela é sozinha, desempregada e pobre. Um pai que nunca viu o filho, que paga pensão, mas se nega categoricamente a ver este menino, mesmo que fosse de vez em quando, pois procura evitar problemas com sua segunda esposa. A atual esposa, que ameaça pedir a separação caso seu marido demonstre um mínimo de afeto pela criança, originada de um caso perdido no tempo. E no meio de tudo isso um menino, a criança que ninguém quer: quatro pessoas, uma tragédia. E o dia-a-dia na Alemanha.

Muitos pais neste país não dão a seus filhos a atenção que eles deveriam dar, todo dia, uma vida inteira. Alguns pagam pelo menos pensão, outros nem isto e esperam que sua atitude anti-social seja compensada pelo governo, que em muitos casos assume suas dívidas.

Será que se deve exigir que eles tomem conta de seus filhos, além da parte financeira? Uma pergunta mais concreta: o menino estará se sentindo melhor se seu “pai” o visite de vez em quando, contra sua vontade, porque juristas exigem isto dele? Claro que não, neste caso a Justiça tem razão, pois não se pode exigir que um pai assuma responsabilidades para com seu filho contra sua vontade, acima de tudo levando-se em conta os interesses da criança. Não se pode exigir o amor, nem através do pagamento de uma multa ou por exigências da Justiça.

Mas o que dá vontade de fazer é de pegar essas quatro pessoas de Brandenburg, que vivem infelizmente um jogo familiar, ao mesmo tempo muito triste e muito real – e todas as outras pessoas, que estragam suas vidas com tanto veneno – dá vontade de pegá-las e sacudi-las para que o raciocínio volte a funcionar: O que vocês estão fazendo? O que estão fazendo com vocês mesmos?

Nove anos, o menino já tem nove anos e durante este tempo ele viveu sem o pai e o pai sem ele. Ele perdeu seu primeiro choro, os primeiros passinhos. Ele não estava presente quando o menino aprendeu a andar de bicicleta, não jogou futebol com ele ou devorou um porção de batatas fritas com ele. Nove anos perdidos. Mas ainda sobra tempo suficiente, para que um conheça o outro, com todo o cuidado possível. E há a possibilidade que não é tão impossível, de que um até goste do outro.

Uma grande parte dos mistérios – e da felicidade – da paternidade é o fato de que a pessoa aceita iniciar um caminho totalmente desconhecido. Quem não tem filhos não pode saber o que significa ter filhos. Ninguém deve ser forçado a esta aventura. Mas quem é pai (ou mãe, a afirmativa vale para ambos), deve cuidar de seu filho. Isto é fato. Mas acima de tudo é um privilégio. Quem não entende isso, não vai agir diferente por causa de uma multa ou de uma decisão judicial. Mas deve-se pelo menos ter o direito de xingá-lo de “Rabenvater” (Nota da tradutora: o que virou “pai filho de uma mãe” ou “pai de meia-tigela” pra mim, agora).



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