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::Convivendo com o inimigo::

Depois do susto das eleições de ontem, onde mais de 13% dos votos foram para o partido de extrema direita da AfD, andava hoje pelas ruas e ficava pensando em quem serão essas pessoas, esses que votaram no AfD. Um em cada cinco no leste alemão e até um em cada quatro homens votaram nesse partido. O comentário de hoje, por causa disso, era de que a democracia tem um problema masculino na Alemanha.

O AfD é um partido racista, xenófobo, marrom (a cor do nazismo), escondido atrás do azul cintilante de suas propagandas. É o partido que disse que o jogador de futebol Boateng até joga bem, mas que ninguém gostaria de tê-lo como vizinho. Que, em última medida, deveria-se atirar em mulheres e crianças refugiadas na fronteira alemã. E ontem o Gaulant, chefe do partido, disse que vai caçar a Merkel e quem quer que esteja no poder, que ele vai recuperar seu país e seu povo. Chega a dar medo. Nessas horas, acho bom viver na fronteira!

Felizmente há muitas cabeças pensantes no país, uma delas é a Ferda Ataman, cujo artigo que saiu hoje na revista Der Spiegel eu vou fazer questão de traduzir. Vamos lá!

Aqui quem fala é uma cidadã preocupada – Ferda Ataman

Desde que ouvi o Alexander Gaulant dizer ontem em todos os canais de tevê de forma bem alta e agressiva que “nós vamos recuperar nosso país e nosso povo de volta”, estou atordoada. Essa ênfase toda na palavra “nós”. O que significa isso? Desde quando se pode falar desse jeito dentro da Alemanha, sem ser taxado de persona non grata? “Recuperar nosso país” – talvez isso significa que vão fechar as fronteiras e desistir de tratados como o de Schengen. Mas “recuperar nosso povo”, o que será que o AfD quer dizer com essa frase, partido esse que daqui a pouco vai entrar no parlamento alemão com 13% dos votos? Eu não consigo achar resposta para isso. Ou não quero. Porque quem haveria de ser o “nosso povo”?

O político da AfD Jörg Meuthen explica logo em seguida na “Berliner Runde” (Rodada de Berlim) que eu como alemã de origem turca, que se esforçou para se integrar e para aprender o idioma alemão, faço parte desse grupo de forma plena. Pertenço ao povo alemão. A ênfase dessa vez fica na palavra “alemão”. E ele afirma que o AfD não pode ser um partido racista, dizendo que seu sucesso vem também de pessoas de origem estrangeira. Não achei nenhuma estatística a respeito. O que encontrei foi um estudo representativo de 2016, que afirma que em um local de votação em Freiburgo, um total de 40 de 118 pessoas que votaram na AfD tinham origem estrangeira. Conclusão do estudo: muitos alemães que emigraram para a Rússia e depois retornaram para a Alemanha, os chamados “Russlanddeutsche“, alemães-russsos, votaram no AfD.

Mas não importa quem votou nesse partido populista de extrema direita no último domingo: o AfD é e continua sendo um partido que se posiciona contra os muçulmanos e contra os refugiados, com racistas em suas primeiras fileiras e – desde o sucesso de ontem – com alguns integrantes de extrema direita nas últimas fileiras. Agora a coisa vai ficar interessante, poderia se dizer, isto é, se não se fizer parte do grupo dos muçulmanos, judeus, homossexuais ou qualquer outro grupo “diferente”, pelo menos diferente do que a nova Direita gosta/aceita. Para mim como alemã de origem turca, que o AfD sugere que retorne para a Anatolia, sinto-me acima de tudo acuada quando vejo notícias de que uma parte do povo está sendo atacada sem que nenhum comentário crítico seja anexado a esse ataque. Nunca antes um partido conseguiu entrar no parlamento (alemão) com dois pontos percentuais. E daí aparece um, que quer recuperar o povo alemão.

Mas ninguém falou ontem sobre as preocupações de pessoas como eu.

Ao invés disso, discutiu-se meticulosamente sobre as preocupações daqueles que votaram no AfD, onde quase todos têm medo da “perda da cultura e do idioma” (95%) e de uma”influência muito grande do islã dentro da Alemanha” (92%). Essas questões foram levantadas como se fosse possível extrair delas respostas para inquietações da sociedade – como por exemplo aposentadorias seguras e aluguéis possíveis de pagar. Eu olho para a tabela da pesquisa do AfD, que parece um soco no rosto, e que é apresentada por um moderador que provavelmente não está me considerando como uma de suas telespectadoras. Como se a “perda da cultura alemã” não significasse que “a Alemanha é dos alemães”. Como se o medo difuso da influência do islã não fosse um indicativo claro de um ato racista contra os muçulmanos.

Eleitores como eu tiveram que presenciar muitas vezes durante a última fase eleitoral que políticos e jornalistas sem nenhuma origem estrangeira discutiram de forma detalhada sobre minorias, imigração e a política de refugiados, sem que ninguém de origem estrangeira pudesse participar da conversa.

Ainda me pergunto como é possível em pleno ano de 2017 discutir sobre temas importantes para o país sem incluir pessoas de origem estrangeiras na conversa. E no caso do duelo dos concorrentes ao cargo de chanceler alemão aconteceu exatamente isso: quatro jornalistas “brancos” colocavam perguntas provocativas sobre imigração, integração e medo de muçulmanos, mas nenhum deles tinha conhecimento de causa.

E na noite das eleições, a coisa se repete: na “Berliner Runde” (Rodada de Berlim) iniciou-se uma discussão sobre o que significava a votação do parlamento alemão para a Alemanha entre sete representantes de partidos e dois jornalistas de idade avançada de canais de televisão alemã, a ARD (Rainhald Becker) e o ZDF (Peter Frey) – todos na mesa eram brancos.

Enquanto eu participava de um chat com outras mulheres engajadas de cor (de origem estrangeiras), nos percebemos: mais uma rodada de discussão, sem que “nós” fossemos incluídas. Aliás não nos vemos como pequena minoria. Somos um grupo grande da sociedade, que ainda é passado pra trás com muita frequência. Já há 10 anos o Instituto Alemão de Estatística está contando quem mora na Alemanha e tem origem estrangeira. Sem os alemães-russos somos 18,6 milhões de pessoas, o que significa 23% da população, um a cada quatro habitantes do país, e o que muitos não sabem: uma grande parte desse grupo, 9,3 milhões, possui passaporte alemão. E falamos bem o idioma alemão. Basta que tentem! Agora há quatro anos pela frente de discussões com populistas de extrema direita. Também gostaríamos de participar das discussões.

Fonte: Artigo da revista Der Spiegel: Hier spricht eine besorgte Bürgerin de 25/09/17.

 

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