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::Diário de um alemão::

Nasci numa família até legal, mas por falta de espaço na casa da minha mãe fui levado, junto do meu irmão, pr’um orfanato. Lá acabamos não ficando muito tempo. Por sorte uma outra família nos escolheu e nos levou pra casa deles. Porém, a sorte não nos acompanhou por muito tempo, pois pouco depois perdi meu irmão através de um acidente e fiquei sozinho naquele apê, logo durante um mês em que uma parte da família estava passando férias no Brasil. Quando voltaram, não suportaram minha tristeza e me apareceram com um novo camarada com quem tive que dividir meu pedaço, pra quem deram o nome de Aladar. Ele não conseguiu ficar muito tempo comigo, pois eu fiz a vida dele virar um inferno. Se ele achava que seria fácil tomar meu espaço, ele estava completamente enganado! Mostrei logo pra ele quem era o rei da praça. Depois de uma operação e um tempo no hospital, resolveram devolvê-lo pra casa de onde tinha vindo. Até cheguei a ouvir que lá ele se transformou e virou outro, calmo, saudável… também pudera, ele não tinha mais que dividir o mesmo teto comigo. Mas tudo isso não chegou a me importar muito, pois afinal eu tinha recuperado o que era meu.

Algumas vezes a vida voltou a ser dura pra mim. Quando tive que ir parar no hospital e voltei de lá sem um pedaço de mim, isso foi mesmo um grande trauma na minha vida. Me colocaram numa caixa e me levaram pr’aquele espaço de horror! Desde então, toda vez que vejo a caixa, parto do pressuposto de que o pior pode acontecer novamente. E isso tudo só por causa de uma pequena rebelião da minha parte! Minha família não entende mesmo nada de genética!

O tempo passou, e outra vez chorei inconsolavelmente quando tive que entrar novamente naquela caixa, mas percebi que todas as minhas lágrimas tinham sido em vão: daquela vez eles só queriam me levar para uma nova casa. Gostei de primeira do lugar, mas depois de algum tempo veio a próxima novidade: minha dona começou a ficar com a barriga cada vez maior, inchou que nem uma azeitona, virou um barril de água que parecia poder explodir a qualquer momento, e por fim ela sumiu por alguns dias, voltando com um ser indescritivelmente incomodante, que me tomou noites de sono e me enchia cada vez mais a paciência quanto mais ele crescia. Por fim acabei aceitando que com o passar dos anos os meninos da minha casa também têm direito a um lugar ao sol, apesar de achar que o sol deveria brilhar, por direito adquirido desde o nascimento, mais pra mim do que pra eles. E principalmente mais pra mim do que pr’aquele pestinha, com quem só consegui fazer amizade depois de vários anos de penúria.

Mas eu não posso reclamar mesmo da minha sorte. A minha família me trata bem, eles me dão comida duas vezes por dia, e se eu encher bastante o saco deles, fingindo que a idade não me permite mais saber se já comi ou não, e principalmente se encher o saco de um de cada vez, acabo ganhando comida mais vezes ao dia. Mas eu tenho que confessar que sou bem chato pra bebida, só gosto de água com sabão ou de privada, pois água “normal” é muito normal pra mim – e de normal eu não tenho nada. Eu passo os dias meditando e dormindo, sou independente e sei tomar banho sozinho. Cuido muito bem de mim e na realidade na hierarquia da minha casa só aceito o meu dono acima de mim, depois de mim vem minha dona e logo depois os filhos dela. Eu tive sorte de crescer ouvindo dois idiomas, alemão e português. Não é todo mundo que ganha um presente destes já de berço, né? Eu reconheço bem este fato. Com o tempo, além da meditação, aprendi um pouco de Reiki, e assim sei retribuir um pouco do carinho que ganho deles, fazendo massagem, prestando Primeiros Socorros e reorganizando o nível de energia da minha família. Sim, eu sou um pouco durão, mas eu tenho que admitir que amo esta família que me pegou no orfanato e desde então sempre me fez sentir uma parte integrante deles. Recebo suas visitas ao lado dos donos da casa, ganho carinho, tenho minha paz e meu espaço. Afinal, a vida até que é bela!

De vez em quando meus donos me aprontam uma ou outra, daí a decepção é às vezes bem grande, às vezes eu posso até suportar. Muitas vezes a decepção é grande para os dois lados, pois eles me deixam sozinho e quando voltam, se assustam com o que aprontei. Quando somem por alguns dias e deixam tudo organizado para o meu bem estar, não tenho muito o que reclamar. Mas quantas vezes já os recebi de cara fechada e precisei de alguns dias pra que eu pudesse voltar ao normal! Com o tempo eles aprenderam e ficaram mais experientes, e eu também fui ficando velho, e tenho a dizer que desta vez eles foram mais espertos do que eu.

A caixa apareceu novamente e eu não queria entrar nela de jeito nenhum, mas por fim não me restou outra alternativa. Eu já estava mesmo notando que eles estavam arrumando as malas, e já tinha entendido que eles iam me levar pra outro canto. Depois de algumas curvas e muito choro fui parar na casa de uma menina até legal, que tentou várias vezes puxar conversa comigo, mas pra mostrar pra ela e pro mundo meu descontentamento eu passei uns 5 dias sem comer. A greve de fome não adiantou nada: eles não voltaram. Por fim eu desisti de passar fome e voltei a comer como antes. A água dela não era a mesma como a lá de casa. A decepção pelo tratamento diferente do que eu antes estava acostumado foi grande, mas tive que me redimir e tomar água normal. Aaaaaarrrrrgggghhh! Não teve outro jeito. Com o tempo descobri que ela tinha uma varandinha e como minha família não voltava mesmo, resolvi ir dar uma espiada no que tinha lá fora pra observar. Durante os primeiros dias até que tinha sol, mas depois a chuva voltou e, como diz meu dono, “neste ano o verão foi numa quinta-feira”. Pensei na minha vida, meditei, fiquei puto, fiquei calmo, chovia, fazia sol, comia, dormia, meditava, dormia, comia, meditava, os dias passavam e minha família não voltava. Cheguei a desistir de voltar a vê-los. Será que eu tinha ido longe demais? Também eu deveria ter percebido a ação deles: a mudança foi feita com todos os meus pertences. Será que eles tinham desistido mesmo de mim? A dúvida chegou a me desorientar e as sessões de meditação foram ficando cada vez mais complicadas e superficiais. Saí do meu centro.

Porém, quando eu não tinha mais esperanças, eles reapareceram! Entrar novamente naquela caixa não foi um problema grande pra mim, o choro no meio do caminho era por causa do meu trauma do hospital. Eu nunca sei se vão me levar pra lá de novo… Mas não: no meio do caminho já pude me reorientar, estava escuro mas eu sabia que estava voltando pra casa. Enquanto voltava, ouvia deles os relatos sobre as férias na Espanha: bom apartamento, boa praia, comida gostosa, visita ao castelo da esposa de um pintor famoso, bons vinhos, bons passeios…. Nem se admira que minha família estivesse mais calma e acima de tudo: com a pele mais escura! Mas eles nunca chegarão ao meu brilho, isso não. Por fim, resolvi deixar todas as mágoas do passado pra trás: ao entrar novamente no meu lar, só sei destribuir carinho pra todo lado, dormir nos meus lugares prediletos, a minha água é a melhor do planeta, a meditação voltou a surtir efeito. De volta pro lar, sou Tiggre, ou Tiggi para os íntimos, o gato mais feliz do planeta!

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12 Respostas to “::Diário de um alemão::”

  1. arnoldcortez Says:

    Lindinho! Pelo jeito as férias fizeram bem para todo mundo!
    Beijos e tudo de bom!

  2. Neide Lourenço Says:

    Ameiiiii…..lindo!!! Voce coloca as palavras de uma forma surpreendente! Mais….mais….
    Parabens Sandra!

    • Sandra Santos Says:

      Ei Neide,
      Este texto foi inspirado pela Clarice Lispector, pois li um livro dela durante as férias. Que bom que gostou do que escrevi! Nos últimos tempos fiquei muito sem escrever, mas pretendo escrever com maior frequencia daqui pra frente.
      Um beijo,
      Sandra

  3. Marcelle Says:

    Deu até vontade de ter um gatinho… mas vai q ele não é especial que nem o seu Tiggre ?

  4. Renata Says:

    Ah o Tigrinho… faltou voce contar que ele salva maos quase caindo congeladas de brasileiras que saem no inverno sem luvas… se bem que voce contou que ele presta primeiros socorros. Beijinhos a todos!

  5. ::07/12 – Calendário de advento da Mineirinha:: « Mineirinha n'Alemanha Says:

    […] aqui em casa, a Witchy, uma gatinha fofa nascida em agosto passado que está dividindo a casa com o Tigger, vulgo Tigrinho. Pra vocês sentirem como a barra está pesando pro lado do Tiggi, aqui uma charge […]

  6. ::Paixão alemã:: | Mineirinha n'Alemanha Says:

    […] Aqui um pouco mais de suas peripécias. […]

  7. Eny M. Santos Says:

    Que lindo, Sandra! Que homenagem sincera! Este bichinho foi mesmo muito especial na vida de vocês!

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