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::O anti-alemão::

Semana passada eu entrei em contato com a prefeitura da minha cidade e pedi uma declaração para meu empregador dizendo desde quando meu filho está na creche e quanto pago por mês. O funcionário público que me atendeu começou o telefonema reclamando de seu programa de computador, que segundo ele estava muito lento. Eu reagi na base da brincadeira, e disse que talvez ainda estava muito cedo (eram 09:30 h da manhã)… Depois de checar os dados, o funcionário confirmou que iria fazer a declaração. Pra agilizar a coisa (e porque eu sei que serviços burocráticos podem demorar bem mais do que o esperado), passei pra ele meu fax do trabalho. Ele confirmou que em 10 minutos eu teria o documento em mãos.

Meia hora se passou e finalmente o fax chegou. Para a minha decepção, um dos dados mais importantes estava faltando: ele tinha escrito o dia e o mês, mas não desde que ano meu filho está na creche, e assim ficou parecendo que ele está lá desde este ano, o que nao é verdade. Tentei ligar de volta pra ele, mas só dava ocupado. Depois de muitas tentativas frustradas, finalmente o “peguei” na linha. Nossa conversa:
– Senhor fulano, eu recebi sua declaração, muito obrigada. Mas o ano está faltando na data informada, e esta informação é importante.
– Não, o ano não está faltando.
– Está sim, segundo sua declaração, meu filho vai à creche desde junho deste ano, e na realidade é desde o ano passado.
– Nao, eu fiz a declaração correta!
– Não, não está correta não. De uma olhada, por favor.
– Ah… deixa eu ver… Ah… o ano está faltando mesmo. Conserte isso por favor à mão.
– Mas eu não posso fazer isso! Esta é uma declaração oficial!
– Se o seu chefe não acreditar na correção, diga pra ele ligar pra mim!
– Mas eu não posso mudar isso à mão, definitvamente não posso. Será que o senhor pode me enviar uma nova declaração por fax? O meu número é…
– Um momento… um momento… eu vou procurar pela minha anotação do número do fax da senhora. Ah… eu tenho tanta coisa na minha mesa, tenho que achar o número certo… Só um momento… Só um momento… Ah, está aqui, achei, é xxxxxxxx, certo?
– Isso mesmo, obrigada.
– Eu vou mandar a declaração agora mesmo. Consertada à mão. Auf Wiedersehen (tchau)!
E desligou o telefone… Eu fiquei boquiaberta… Por uns momentos fiquei sem reação. Pra mim está claro que um fax com um data forjada ainda pode criar problemas, pois se eu copio um fax original e antes mudo a informação nele, não se sabe se ele chegou no local daquela forma ou se fui eu que o alterei… Tomei uma decisão imediata: contei o caso pras minha colegas da contabilidade, e elas viraram minhas “testemunhas”, tendo visto quando o fax chegou, com a data consertada pelo tal funcionário público. Este foi definitivamente o alemão mais “anti-alemão” com o qual me deparei até agora na Alemanha, ainda mais levando-se em conta que era um funcionário público…

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10 Respostas to “::O anti-alemão::”

  1. Dago Schelin Says:

    Oi, Sandra
    Tem um lado bem alemão nesse “anti-alemão”: ser teimoso. Não é por nada, mas quando um alemão bota uma coisa na cabeça não há quem tire! Não tem discussão, alemão não erra, oras!
    🙂

    • Sandra Santos Says:

      Oi Dago,
      Talvez eu nem enxergue isso muito neles, pois eu sou super teimosa também, hehehe… Mas talvez uma diferenca, em alguns casos, é que a primeira coisa que faco quando cometo um erro é pedir desculpas, reparar meu erro e cuidar para nao repetir o erro mais tarde. Eu nunca teria tido coragem de dar uma resposta dessas para um funcionário meu que reclamasse que uma declaracao feita por mim nao estava correta…
      Um beijo e bom domingo pros 3!
      Sandra

      • Dago Schelin Says:

        Sandra,
        Aí está a diferença: alemão que é alemão de verdade não erra. 🙂 Admitir erro é como trair a própria descendência! 🙂
        Por exemplo, tem um monte de alemão q diz que não sabe falar inglês, mas q na verdade fala muito melhor do q o brasileiro q diz q sabe… a questão é q às vezes ele não fala com perfeição, então prefere nem tentar (estou dando aula de inglês aqui na Volkshochschule em cuja turma de iniciantes tem uns q já falam muuuuito bem!). 🙂
        (Os alemães de plantão aí não fiquem chateados com essas piadas… sou alemão tb… tá no meu sangue… é um tiro no meu próprio pé).
        Abraços!!!!

      • Sandra Santos Says:

        Oi Dago,
        Mas eu nao sei se isso vem deles ou se vem do que encontram como expectativa com relacao a eles. Eu tenho uma visao muito crítica com relacao à escola na Alemanha, que prefere se concentrar na crítica ao que a crianca nao sabe/nao pode do que naquilo que a crianca sabe/tem talento. Isso faz com que se concentre mais no que falta e nao no que ressalta positivamente em cada aluno e custa muita auto-estima.
        Um beijo,
        Sandra

  2. Fabio Says:

    Oi Sandra,

    Isso é muito mais comum do que você imagina. Serve, entre outras coisas, para demonstrar que a preguiça e a falta de educação é internacional e que os alemães não escapam delas.

    Aliás, um bom serviço que a gente que mora aqui na Alemanha pode prestar aos brasileiros que ainda estão no Brasil é mostrar que as famosas “organização” e “pontualidade” alemãs estão cada vez mais indo pro buraco. Basta uma visita aos correios alemães, uma passagem por qualquer órgão público alemão, basta ver os horários de partida dos trens, a qualidade em queda do ensino nas escolas públicas e tantos outros exemplos. Somente em uma área os alemães continuam extremamente organizados e pontuais: tirar férias e programar atividades de lazer. Muitas vezes, a impressão que tenho aqui é que as pessoas não gostam de trabalhar e trabalham só para poder gastar com lazer, curtir a vida. Ora, se o trabalho é a atividade que a gente mais faz na vida, ocupando normalmente 1/3 do nosso tempo diário, então quem não gosta do próprio trabalho deve ser muito infeliz, coitados.
    🙂
    Abraços,
    Fabio

    P.S.: Continuo acompanho seu ótimo blog via RSS.

    • Sandra Santos Says:

      Oi Fábio,
      A discussao em torno deste ponto daria vários posts! Traduzindo, pode-se dizer que a tendencia ao “work-life-balance”, saber levar todos os lados da vida em harmonia, está mais exarcebado aqui. Mas se perguntamos como foram as férias de alguém aqui, sempre recebemos a resposta:
      – Schön, aber zu kurz! (Muito boa, mas curta demais!)
      Por outro lado, acho que reclamam demais da coitada da Deutsche Bahn, que pode estar caindo com sua pontualidade, mas eu pessoalmente continuo achando seus servicos extraordinários e continuo adorando viajar de trem. Às vezes acho que as pessoas aqui reclamam por estarem acostumadas a reclamar, sem pensar se p.ex. um atraso de 3-5 minutos vai afetar em algum ponto meu dia (minha vida?!?). Mas fato é que aqui existem pessoas de todas as formas, como em todo canto do mundo, organizadas ou nao, super limpas ou nao, pontuais ou nao, gentis ou nao, e por aí vai. Quanto ao trabalho, muitos estao insatisfeitos com o que fazem profissionalmente, mas acho que aí entram vários fatores além do trabalho em si (o ambiente de trabalho em si, a cultura organizacional muitas vezes massacrante, a pressao, a alta expectativa, a incapacidade de aceitar erros, a falta de ajuda do grupo – Ellenbogengesellschaft, a sociedade onde cada um deve cuidar de si próprio -, o individualismo, a tendencia ao TEAM – Toll, Ein Anderer Macht es…. – jóia, outra pessoa vai fazer meu trabalho por mim).
      Gostaria de ler seus comentários a respeito.
      Um bom domingo pra vc e beijos,
      Sandra

  3. Burkhard Says:

    ADOREI!

    O tão simpático jeitinho brasileiro chegou na Alemanha! (Olhe, não estou falando de dinheiro e corupção.) Imagine, um administrador público que busca soluções simples e rápidas!

    Pois é. Os países estão mudando. O povo alemão se torna um pouco mais relaxado e as mudanças no Brasil (que eu podia presenciar nos últimos 15 anos) no caminho para uma país mais sério são consideráveis. Isso é ótimo.

    Precisamos valorizar os progressos. Mesmo que acontecem em pequenos passos.

    Realmente, Alemanha não é mais como era.

    Graças a Deus!

    • Sandra Santos Says:

      Ei Paulo,
      Vc como sempre super integrativo, né? No final das contas, sempre nos encontramos no meio do caminho! 🙂
      Um beijo e obrigada pelos parabéns,
      Sandra

  4. arlete soffiatti Says:

    A palavra-chave é “funcionario publico”. Este é o que é em qualquer lugar do mundo.
    A funcionaria da embaixada italiana aqui em Colonia disse ao meu marido que não iria aceitar a documentação dele para dar entrada na cidadania porque ela iria sair dessa função em setembro e que ele deveria entao falar com o novo funcionário. Ela disse isso em JULHO, pode?

    • Sandra Santos Says:

      Incrível, né Arlete? Funcionário público é realmente “sui generis”, nao importa onde quer que esteja ou de que nacionalidade seja!…
      Um beijo,
      Sandra

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