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::Como comecei a trabalhar na Alemanha::

Cheguei à Alemanha em 1993, depois de ter terminado os estudos universitários, para fazer um estágio pela AIESEC (Associação Internacional de Estudantes de Ciências Econômicas e Comerciais) na área de importação e exportação. O meu estágio durou um ano, que foi um dos melhores anos da minha vida e ao mesmo tempo um dos mais difíceis. Um dos melhores por ter podido viver sozinha e, pela primeira vez, totalmente independente, por ter vivido a tão sonhada experiência internacional e ter conhecido tantos lugares, pessoas e costumes diferentes. Difícil porque naquela época não existia ainda a internet, as cartas demoravam até seis semanas ida e volta, conseguir ler uma revista ou um jornal do Brasil era uma raridade e telefonar era caríssimo. As saudades e as dificuldades de comunicação eram muitíssimas, tanto com minha família e amigos no Brasil quanto na Alemanha, principalmente nos primeiros meses…

Durante o ano de 1993 fiz na cara e na coragem a prova de alemão PNdS (Prüfung zum Nachweis deutscher Sprachkenntnisse), que na época era necessária para entrar em uma universidade na Alemanha. Essa prova seria hoje equivalente ao teste DaF (Deutsch als Fremdsprache). Passei e me inscrevi inicialmente na Faculdade de Letras, tendo mais tarde mudado de cidade e de curso. Com o fato de ter tido o visto alterado de “estagiária” para “estudante”, obtive o direito de trabalhar oficialmente, por um determinado período de tempo durante cada ano. Lógico que, para viver e me sustentar, fazia de tudo. Já trabalhei, por exemplo, como garçonete em um restaurante e em um bar no período noturno. Foi uma experiência legal, que me dava o que precisava para viver, e, ao mesmo tempo, me permitia frequentar a Faculdade de “International Business” durante o dia.

Entrei com a papelada para pedir o reconhecimento dos meus estudos na Alemanha, mas infelizmente não reconheceram o que eu esperava. Naquela época, somente uma parte do curso de Administração, o Vordiplom (tipo um pré-diploma para o curso, o similar ao nosso bacharelado, já que o curso na Alemanha, na época, só exisitia como curso de Mestrado). Fiquei decepcionadíssima, também por não ter o entendimento das equivalências que tenho hoje! Mais tarde, fiquei sabendo que no começo dos anos 90 costumavam reconhecer na Alemanha apenas cursos de Ciências Exatas e os meus são da área de Ciências Humanas. Junto a isso, como eu disse, não existiam cursos de bacharelado naquela época por aqui, e comparado a um curso de Mestrado na área administrativa, o meu grau (Bachelor of Arts) era o de uma parte do percurso. Isso poderia significar que teria que começar o meu curso do início e precisaria refazer todas as matérias, o que, como estrangeira, significaria ficar na universidade alguns anos a mais do que os estudantes alemães, e, no final das contas, sair com um diploma similar aos dois bacharelados que já tinha na época. Isso estava fora de cogitação! Entrei numa sinuca e naquela época realmente não sabia mais o que fazer.

Mas sempre fui uma pessoa que anda de antenas ligadíssimas e, um belo dia, vi um anúncio de emprego na faculdade procurando por pessoas que falassem, dentre outras línguas, o português como língua pátria! Fui logo lá me apresentar, ou melhor, fui levada pelo meu então noivo, pois não tinha a menor ideia de onde ficava essa empresa, que aliás não era muito perto da minha casa.

Primeiramente, consegui uma colocação como estagiária e como gostei deles (fazia o atendimento de clientes internacionais da Lufthansa) e eles de mim, me ofereceram uma colocação fixa quando casei. Fiquei por lá durante quatro anos. Posteriormente, assumi o cargo de escriturária de exportação em uma outra empresa e depois o de assistente de exportação, trabalhando ao lado do diretor de exportação de uma empresa alemã de médio porte. Esta foi a minha história profissional dos primeiros dez anos na Alemanha.

A história continuou depois de 2005, quando me enveredei pela área de Recursos Humanos ao ser convidada pelo então diretor da empresa onde trabalhava para assumir as responsabilidades pela área. Na ocasião, fiz um curso de especialização completamente custeado pela empresa.

Queria colocar alguns pontos que talvez possam ajudar uma ou outra pessoa na busca de seu lugar ao sol aqui do outro lado do mundo:

– Estudar na Alemanha ou fazer estágios pode ser um trampolim pra quem quer trabalhar e viver aqui. Além da AIESEC, que atende estudantes da área gerencial, ainda há a organização IAESTE, que oferece estágios nas áreas de Ciências Exatas (Engenharia, Biologia, etc.);

– Tente ver seus empregos numa linha cronológica, como parte de um projeto de muitos anos. Não desista se o primeiro cargo “não for lá uma Brastemp”! Se você não está ainda exatamente onde queria estar, busque caminhos (e tente muitos!) para avançar conforme seu desejo;

– Quando me casei, fui buscar minha licença de trabalho (“Arbeitsgenehmigung“) alguns dias depois do casamento. De início, as funcionárias do “Arbeitsamt” (ou hoje “Agentur für Arbeit”) ficaram abismadas e não queriam me dar o tal documento, como solicitado, imediatamente. Tinha ido com meu marido, que entendia bem de leis para estrangeiros, e como não conseguiram encontrar uma razão baseada nas leis pela qual eu não poderia sair de lá sem a minha licença, não tiveram outra alternativa a não ser a de entregar-me o documento!

– Não se veja como um produto “menos qualificado” ou “menos competente” do que o trabalhador alemão ou de muitas outras nacionalidades. Você é um ser único e como tal pode obviamente apresentar pontos negativos para uma empresa (não vai saber falar e se expressar 100% corretamente em alemão, vai cometer erros de gramática, etc.), mas, por outro lado, também tem vantagens (sabe falar outros idiomas, é flexível, tem ideias diferentes de outras pessoas, etc., tudo isso por ter vindo de um outro país e ter passado por uma formação escolar diferente dos nascidos no país). Você é um “produto” para o mercado de trabalho e, como tal, deve se vender da melhor maneira possível, ressaltando ao máximo seus pontos positivos. No dia a dia, tudo vira uma troca: você ajuda seus colegas de trabalho naquilo que pode, e eles vão ajudá-la nas suas dificuldades com a língua. Lembre-se de agradecer sempre por ser corrigida e de oferecer sua ajuda quando puder. Ninguém nasceu perfeito!

– Não se deixe abater por receber respostas negativas e passar por muitas tentativas frustradas na busca por um emprego! A situação do mercado de trabalho está difícil mesmo, até para os próprios alemães, então sua melhor decisão é não desanimar e continuar tentando! É como o velho ditado alemão afirma: tudo tem um fim, só a salsicha é que tem dois! Se você não chegou ainda onde queria, é porque ainda está no caminho na direção do seu objetivo.

– Sempre acompanho as discussões que aparecem aqui sobre a integração de estrangeiros. Tenho uma opinião dividida a respeito: tanto o alemão oferece, muitas vezes, pouca oportunidade para que o estrangeiro se integre, como este frequentemente não demonstra querer se integrar. Se estou no exterior, trago comigo meus valores e minha maneira de encarar a vida, mas tenho que aceitar seguir normas, regras e leis do país que está me recebendo e fazer o maior esforço possível para me comunicar razoavelmente bem na língua pátria vigente. Tenho que contribuir da melhor maneira que puder para a minha própria integração, pois afinal eu é que tenho a ganhar mais com isso!

Boa sorte!!!

°°°
01.08.12 – Veja também uma nota atual sobre o cartão azul UE neste post.

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12 Respostas to “::Como comecei a trabalhar na Alemanha::”

  1. Vanessa Says:

    Eu tambem sou de Minas, estou aqui com visto para me casar…….estudava engenharia no Brasil, e gostaria de fazer enfermagen aqui na Alemanha…….e por enquanto trabalhar na Lufthansa….como faz, pode me dar algumas dicas.

    Desde já agradeco pela a atencao,

    Vanessa

  2. catita Says:

    Esse tal de reconhecimento de dimploma (fora do nosso pais) voce esta certa amiga, nao se deixar abater..e lutar..até..
    Sei como é, aqui na America ainda e muuuuuuuuuuito mais rigido.Estados Unidos é sei la..,dificil! em relacao grades que voce faz..para atualizar(ou seja) reconhecer.
    Eu ja fui com problemas,me formei na Argentina, o reconheci no Brasil(leis diferentes).Casei com um americano.E ainda nao reconheci o meu aqui(lol).E valido..,mas estudo e faco outra universidade aqui.
    Areas opostas.Fora o preco $$$.Imagino na Alemanha.$$$.ui!
    beijos.
    Adorei teu relato, eres escritora guria?
    parabens

  3. Miriam Says:

    Olá,

    Apaixonei-me por um alemão que veio fazer um estágio para Portugal (país onde moro ) e ele mudou a minha vida por completo. Tenho licenciatura em Marketing e gostava de ir para a Alemanha trabalhar (mais propriamente para Stuttgard). Mas nunca fui à Alemanha, não sei falar alemão, apenas falo português e inglês e estou a ver a minha vida muito complicada. Não sei se vai ser fácil arranjar emprego lá na minha área…
    Tenho muito receio porque não quero depender dele, não quero que ele me sinta como um fardo, queria ser completamente independente lá mas sei que vai ser difícil, não só arranjar emprego como fazer novos amigos, como arranjar médicos em quem confie… Acho que vocês foram todas muito corajosas, espero conseguir um dia dar o meu testemunho como alguém que conseguiu :).

    Beijinhos para todas :).

  4. ::Dicas para entrevista pessoal:: « Mineirinha n'Alemanha Says:

    […] Mais algumas dicas aqui. […]

  5. Gabriel Reis Says:

    Oi Sandra,

    muito útil o seu blog! Estou graduando em Ciências Econômicas agora no final de 2011e tenho muito interesse de trabalhar e viver em Alemanha. Queria saber se o meu bacharel pode ser reconhecido aí. Como está o mercado de trabalho na Alemanha em minha área? Como são os estágios que você organiza por intercâmbio?

    Grato

    Gabriel Reis

    • Sandra Santos Says:

      Oi Gabriel,
      Os cursos de Ciencias Exatas, pelo que eu saiba, sao reconhecidos com maior frequencia. Mas depois de adquirir experiencia, ninguém se interessa mais pela origem do seu diploma, vc passa a ter valor pela experiencia que tem.
      Quanto ao estágio, visite a página da organizacao estudantil AIESEC, através da qual eu vim pra Alemanha.
      Um abraco e boa sorte!
      Sandra

  6. JULIANA Says:

    Ola! gostei muito do seu blog! eu tenho uma duvida enquanto a experiencia profissional, nunca trabalhei na Alemanha so no brasil eu posso botar as empresas que trabalhei no Brasil no meu “lebenslauf?
    obrigada!

    • Sandra Santos Says:

      Oi Juliana,
      Claro que sim! Coloque nao só o nome da empresa, como se possível o ramo (Branche) e detalhe resumidamente suas principais funcoes em cada cargo.
      Aguardo seu CV! 🙂
      Um beijo,
      Sandra

  7. Vandilma Domingos Says:

    Ola, tudo bem? meu sonho é viver na Alemanha, a cultura, os costumes, as pessoas me fascinam. Sou do Ne do Brasil e formada em Letras com habilitação em Língua Espanhola. Também tenho diversas experiências na área de marketing com franquias americanas aqui no Brasil. Estou devorando tudo sobre a Alemanha afim de que possa estudar e trabalhar aí. Sei que não é fácil como já fo abordado a começar do reconhecimento do diploma da minha universidade. Mas estou disposta a pagar o preço pelo sonho. Desde já me coloco a disposição que se alguém tiver alguma informação para professor de portugues e também na área de marketing por gentileza me deem as dicas ok!

    domingosvandilma@yahoo.com.br

    Abraços e sucesso a todos!

  8. Claudia Cristina Dado Roosen Runge Says:

    Ola,
    Muito bom seu blog. Ja estou na Alemanha, aprendendo alemão no curso de Integração e gostaria muito de fazer um estágio, mesmo que não remunerado na área de Marketing, Fotografia, Turismo… Existe algum site onde posso me inscrever? Ou alguma empresa Brasiliera que cobra para achar uma vaga?
    Obrigada

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